quarta-feira, 15 de abril de 2009

LIII








mabel escolhe invariavelmente o caminho longo. e respira.

LII

hoje está longe de ser um dia qualquer. num aniversário você se dá conta do que são, de verdade, estações de um ano: é que aqui faz sol o tempo todo e a temperatura quase não varia, se descontados uns poucos graus acima, outros abaixo.
num aniversário ele sente que estão vivendo um tempo condensado, ela conta às amigas que se sente leve e liberta de tantos medos e que deve rezar.
pensou se faria um almoço em que serviria maçãs, mel e peras, mas no final o que racionou foram os ovos de chocolate. era um domingo para ser silencioso,sem festa, que ela só queria sentir o calor emanando da casa, as horas vagarosas desdobrando histórias novas pelos lugares que já viram tanto, tanto.
ela se lembrou das massas fininhas abertas com rolo sobre o mármore - como pareciam frágeis assim estendidas em superfícies largas mas eram ali em sua forma perfeita. podem dobrar-se sobre si mesmas, sempre a um passo de quebrar-se, mas resistem: a liga é seu suor.
num aniversário você se espanta. a liga é seu suor e o dele; quanto mais superfície melhor.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

LI

o inverno em últimos dias escaldante. mabel se viu obrigada a contar sua vida recente em diferentes detalhes, uma vez que tem encontrado suas amigas com muita frequência. o inverno por essas bandas se presta a isso. as piscinas ficam geladas, as mulheres em roupa de banho quase sempre cobertas por vestidos e bermudas deixam o dia passar, conversam sem nenhuma pressa, olhando os filhos ao redor enquanto a luz trafega em seu arco diário , mudando o verde, mudando o humor, testando a proximidade.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

LIV

uma cor ganha contorno em matéria. vagarosidade num vórtice que concentra o castanho, dentro do meu, seu olho.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

L

de uma vez em que algo terminara, ele guardava uma música agora em não-ritmo hip hop. mabel sentiu seu coração parar. era assim sempre que compreendia quanta dor lhe causara.

mas não queria que as histórias fossem jamais esquecidas, se elas é que são o estofo do amor. uma vez teve coragem para perguntar-lhe se fôra feliz, ele respondeu que sim, ela ficou aliviada e agradeceu às mulheres da vida dele. porcelana em pedaços. agora era sua voz firme o que ouvia dizendo: que se regozijara ao vê-la superar a angústia, finalmente.

numa tarde longínqua conversavam numa poltrona cor de chá sob a janela e ele via, com nitidez, que ela era capaz de viver alguma felicidade por si própria. então não fazia parte daquele quadro, e silenciosamente desejou-lhe sorte.


ela nunca mais apareceu na minha vida, na minha mente novamente
eu sei que o que ficou não desapareceu, a minha vida muda sempre lentamente.
como a lua que dá voltas pelo céu, e mexe tanto com o presente quando ausente.
eu sei, não sou vidente mas sei o rumo do seu coração



mabel esperou que ele continuasse a falar. não, seus olhos escureciam, ele sentia um peso qualquer, só dele. talheres de prata batendo num assoalho sem tapete. não se meteu, mas não teve medo.

aquela era uma noite porosa, emoções de diferentes densidades moldando o quarto. tanta entrega, o silêncio dentro d´água, os dois braços num abraço fundo e que duraria muito, muito.

ele não disse mais. ela ao contrário, não o poupou de sua narrativa-escrita-de-diário. dizia a ele que uma voltagem alta lhe fazia olhar à volta os objetos, mas que era dele, só dele, sua fome. e a intimidade. ele levou às mãos à testa para rir do inevitável: nada é capaz de fazer parar uma mulher a não ser aprender sobre a mudez que subjaz em toda sua falação voluptuosa.

rir, talvez do amor.

terça-feira, 29 de julho de 2008

XLIX

por um instante, mabel se esqueceu do que trata les liaisons dangereuses. o amor é uma narcose. nada a fazer senão ouvir canções suaves em vozes de mulheres tristes, o time a que pertence, e gosta.

XLVIII

aprendi a deixar os livros gastarem-se; ficaram pesados de pó, do limo do tempo em sua mistura viscosa, seu tapete de argila e quartzo, os bichos minúsculos que moravam comigo numa casa branca.
vim-me embora , deixei guardadas lá colônias de algas verdes e azuis sobre as pedras úmidas, para um mês depois trazer os livros comigo, todos. e aprendi a deixar as cicatrizes marcarem-lhe a pele, pois viajaram demais. agora eles estão ainda mais gastos, carregam meus olhos gravados.
estou em paz, a um passo.
dei adeus a alguma solenidade, e leio-os, ávida.